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Ronco e Síndrome da Apnéia Obstrutiva do Sono


Gilberto Guanaes Simões Formigoni
Aracy Pereira Silveira Balbani

Todos nós sabemos que uma boa noite de sono é fundamental para nossa saúde. Quem já não experimentou a sensação de acordar com mau-humor após uma noite mal-dormida, amaldiçoando o despertador e passando o dia todo bocejando e sem disposição para o trabalho e outras atividades? Ou que tal ser "convidado(a)" a dormir na sala porque a esposa (ou o marido) não tolera dormir com você por causa do seu ronco?
Mas não basta deitar e dormir a noite toda (sem fazer barulho...) para acordar bem no dia seguinte. Hoje em dia, é consenso entre os médicos que a qualidade do sono (e não apenas o número de horas em que o indivíduo dorme) também é importante para um repouso adequado, repondo as energias gastas na rotina diária. Assim, passou-se a estudar mais a respeito do sono, e descobriu-se que muitos pacientes dormiam durante toda a noite, porém, já acordavam "cansados" e continuavam com sono ao longo do dia. Essas pessoas têm uma doença denominada síndrome da apnéia obstrutiva do sono (apnéia é a palavra de origem grega que significa "vontade de respirar").
Nesse capítulo você vai saber um pouco mais sobre a síndrome da apnéia do sono e o ronco e conhecer as alternativas que a Medicina tem a oferecer para o seu tratamento.
O que é síndrome da apnéia do sono?
Nessa síndrome, a dificuldade para respirar durante o sono (por causa de obstrução do nariz ou da garganta) chega a fazer a pessoa parar de respirar por alguns segundos, reduzindo a oxigenação sangüínea. Dessa forma, o cérebro emite um "sinal de alerta", ocasionando despertares rápidos durante a noite, muitas vezes não percebidos pela própria pessoa. Somando-se todos esses despertares, contudo, o tempo de sono "eficiente" é muito pequeno, e isso explica porque o indivíduo já acorda cansado.
Essa não é a única conseqüência da síndrome. A baixa oxigenação sangüínea durante a noite pode afetar o aparelho cardiovascular, levando à hipertensão arterial, arritmias cardíacas, impotência sexual, ou o próprio funcionamento cerebral, prejudicando a concentração em determinadas atividades e a memória. Para se ter uma idéia da gravidade da síndrome, os pacientes com a síndrome sofrem acidentes de trânsito sete vezes mais do que a população geral.
A síndrome pode ocorrer em qualquer faixa etária, com pico de incidência entre os 40 e 50 anos. A obesidade é o principal fator de risco para a síndrome; cerca de 2/3 dos pacientes com SAOS são obesos. É possível que existam fatores genéticos associados, o que explica o fato de várias pessoas da mesma família terem apnéia.
Será que eu tenho apnéia do sono?
Aqui cabe um lembrete: TODOS nós temos alguns episódios de apnéia durante o sono, sem maiores conseqüências. A síndrome da apnéia obstrutiva do sono, como o próprio nome indica, refere-se ao quadro global de má qualidade do sono por conta da obstrução das vias aéreas superiores (nariz, boca e garganta) e seus efeitos. Também existem outros tipos de apnéia, causados por alterações do sistema nervoso central.
Deve-se ficar atento para a possibilidade de haver síndrome da apnéia obstrutiva principalmente se a pessoa:
· ronca;
· é obesa ou hipertensa;
· permanece com sonolência diurna apesar de dormir várias horas por noite;
· tem irritabilidade ou dificuldade para se concentrar em atividades habituais (dorme lendo o jornal ou assistindo à televisão);
· tem redução da libido ou impotência sexual;
· levanta várias vezes durante a noite para urinar (nesse caso, é importante avaliar se não se trata de um sintoma de hiperplasia de próstata, muito comum nos homens de meia-idade).
O diagnóstico é feito através dos sintomas relatados pelo paciente; muitas vezes o próprio paciente não percebe que desperta ou pára de respirar durante a noite; assim, é importante que o cônjuge ou um familiar do paciente acompanhe a consulta médica. Também há uma série de exames para avaliação das vias aéreas superiores (nariz, boca e garganta) e do aparelho cardiovascular. Você pode até ter ouvido falar de algum parente ou amigo que fez a polissonografia, exame em que o paciente dorme uma noite no hospital com vários sensores que registram batimentos cardíacos, oxigenação sangüínea, etc.

Como é o tratamento?

O tratamento é individualizado, ou seja, depende da intensidade da apnéia e das características de cada paciente, variando de caso para caso.
Perder de peso, evitar ingestão de bebidas alcoólicas antes de ir dormir, ter um quarto silencioso e horários regulares para dormir e acordar muitas vezes são medidas suficientes para melhorar os quadros de apnéia leve. Na verdade, essas recomendações são válidas para qualquer pessoa, não é mesmo?
Quando são diagnosticadas outras causas para a apnéia, como problemas anatômicos das vias aéreas superiores, o médico pode indicar o uso de medicamentos, aparelhos especiais para manter a respiração durante o sono (os CPAP's, sigla inglesa para aparelho de pressão positiva contínua) ou mesmo algum tipo de cirurgia, de acordo com a necessidade do paciente.

Eu ronco, e daí?

Se você pensa que ronca sozinho, está muito enganado. Existem estatísticas indicando que na população de 30 a 35 anos de idade 20% dos homens e 5% das mulheres roncam. Na faixa dos 60 anos de idade mais da metade das pessoas ronca.
O ronco praticamente só acontece na espécie humana, já que a quase totalidade dos animais - exceto o homem - dorme em decúbito ventral ou lateral, impedindo a queda da mandíbula em direção à garganta. Uma vez que os primatas adotaram o decúbito dorsal (barriga para cima) para dormir, adquiriram a inédita capacidade de roncar.
Existem roncadores anônimos e famosos. Conta-se que mais de vinte presidentes dos Estados Unidos roncavam (incluindo-se George Washington), além de Mussolini e Winston Churchill (este último, chegando a emitir ronco de até 35 decibéis!), outros roncadores notáveis.
A intensidade do ronco é bastante variável. O livro Guinness de recordes registra o ronco de maior intensidade do mundo, emitido na Inglaterra em 1984, que alcançou a marca de 87.5 decibéis.
O fato é que o ronco pode ter efeitos sociais bastante indesejáveis, como os casos de homicídios de roncadores por companheiros de quarto que sentem incomodados pelo ruído. Também surgem as estratégias mais complicadas que as famílias utilizam para "proteger-se" dos membros que roncam, como colocá-los para dormir na área de serviço junto com o cachorro, na varanda da casa ou na sala de visitas no andar de baixo.
O ruído característico do ronco durante o sono pode se originar em qualquer ponto da via aérea, desde o nariz até a epiglote, na entrada da laringe. São causas do ronco:
· Flacidez da musculatura do palato (céu da boca), língua e faringe, incapaz de manter a via aérea aberta durante a inspiração. É a principal causa do ronco iniciado na idade adulta.
· Obstrução respiratória pelo tamanho aumentado das amídalas, adenóide, cistos, tumores, língua, etc. , comprometendo a passagem do ar.
· Comprimento excessivo do palato mole e úvula (campainha), produzindo vibrações durante a respiração.
O ronco pode ocorrer de forma isolada ou estar associado à síndrome de apnéia obstrutiva do sono. A interrupção abrupta do ronco durante alguns segundos pode indicar a ocorrência de um episódio de apnéia, seguindo-se um novo ronco de maior intensidade, forçando a abertura da via aérea e reiniciando a respiração.
O tratamento do ronco segue as mesmas orientações do tratamento da apnéia obstrutiva do sono. Nos casos em que o paciente apresenta ronco isolado, sem a ocorrência de apnéia está indicada cirurgia, podendo ser utilizado o laser ou bisturi eletrônico.

Tenha um bom dia!

Se você apresenta sintomas que sugiram a ocorrência da síndrome da apnéia obstrutiva do sono, procure seu médico. Ele irá fazer uma avaliação inicial, encaminhando-o ao otorrinolaringologista caso seja necessário. Queremos ressaltar que o tratamento precoce da apnéia e do ronco evita as complicações clínicas graves, sobretudo as relacionadas ao aparelho cardiocirculatório.
Agora que você já sabe mais a respeito da influência do sono na sua vida diurna, agradecemos pelo seu acesso à nossa home-page e o convidamos a enviar críticas e sugestões. Estaremos à sua disposição para esclarecer eventuais dúvidas.

Um abraço,

Gilberto Guanaes Simões Formigoni
Médico Assistente e Doutorando do Curso de Pós-Graduação da Divisão de Clínica Otorrinolaringológica do HCFMUSP

Aracy Pereira Silveira Balbani
Médica Residente da Divisão de Clínica Otorrinolaringológica do HCFMUSP

Bibliografia
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3. Strollo PJ, Rogers RM. Obstructive Sleep Apnea.
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4. Strohl KP, Roth T, Redline S. Cardiopulmonary and Neurological Consequences of Obstructive Sleep Apnea. In Fairbanks DNF, Fujita S eds. Snoring and Obstructive Sleep Apnea, 2nd edition. New York, Raven Press, 1994; 31-43.
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8. Fairbanks DNF. Snoring - An Overview and Historical Perspectives. In Fairbanks DNF, Fujita S eds. Snoring and Obstructive Sleep Apnea, 2nd edition. New York, Raven Press, 1994; 1-16.

 

 
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