Uma leitura dramática.
Analisando superficialmente o planejamento e a execução do atendimento de saúde ao longo dos últimos anos, vemos que ele melhorou, no Município do Rio, no estado do Rio de Janeiro e no Brasil, nesta ordem. Contudo alguns fatos básicos continuam sem resposta. Vamos analisar. Estamos falando de Brasil, mas pode acontecer em qualquer lugar.
No passado havia carência de vagas em hospitais, de exames, medicamentos, ambulâncias, gestão, controles,etc.
Vários projetos foram criados. Alguns deles com méritos técnicos. Outros com méritos políticos, e outros sem mérito algum. A descontinuidade foi − e é − problema crônico. Só deixa de ser descontinuidade quando a visibilidade aparece publicamente. Falta coragem política para desabilitar um processo que deu certo − e deu votos.
Processos de atendimento melhoraram através de centrais reguladoras de atendimento (nota: quem controla e supervisiona as centrais não é médico − e cumpre ordens... São cargos políticos). Distribuição de medicamentos, idem, idem. Central de marcação de exames, idem. Distribuição de pacientes para centros de diálise. Idem. Idem.
Em minha ótica, a visão do paraíso está estabelecida. Um mundo de Alice? Sem maravilhas.
Na verdade o que está se fazendo é criar uma demanda reprimida, pois uma vez feito e fechado o diagnóstico, através de exames clínicos, não há especialistas e locais para atendimento imediato.
Examinemos as filas pra cirurgias eletivas. Exemplo mais claro.
Ou se morre da doença ou se morre de “fila”. As filas também têm um custo, pois existem controles e algumas filas são pré- filas onde os pacientes são submetidos a exames periódicos para entrarem numa “fila definitiva”. Transplantes por exemplo. Existem estudos acadêmicos feitos e publicados (sugiro que se façam aqui) que demonstram que a taxa de mortalidade, em alguns casos, é maior na fila e no pós-atendimento, comparado com pacientes sem diagnóstico e sem tratamento. Em outras palavras, o paciente esperou tanto tempo que passou o momento crucial (turning point – momento terapêutico ideal), em que a taxa de recuperação pós-procedimento quase que anula o custo/benefício da espera (cirurgias cardíacas, por exemplo).
Gera-se um paradigma Kafkiano (ou “ a escolha de Sofia”, na versão atualizada). Escolhe-se: ou se morre ou morre “de fila”, ou se morre porque o tempo desejável para ser submetido ao procedimento passou ou a o paciente piorou pelo aparecimento de complicações tardias, daquilo que inicialmente deveria e poderia ser evitado. Um deles, mais presente é a idade do paciente.
No atestado de óbito não consta espaço para se colocar o tempo que o paciente permaneceu numa fila, aguardando atendimento ou procedimento, ou para onde foi encaminhado. Caem na vala estatística comum de índices, e nada acontece. “Morreu mesmo né. Fazer o quê?” Passam a ser números, estatísticas, que comparando com outros estudos, passam a índices, que, dependendo do caso, se tornam aceitáveis, pois estão dentro do “esperado” academicamente falando.
E a fila continua.
O viés acadêmico passa a ser usado (indevidamente) como instrumento para explicar uma situação que nada tem a ver de acadêmica. Os índices usados pelo planejamento em saúde, na ótica acadêmica, não consideram demanda reprimida como necessidade imediata, pois acadêmico é acadêmico, e nada tem a ver com compromisso político. Os meios (estatísticas acadêmicas), usados por alguns gestores, justificam os fins. O planejamento é feito por grupos de gestão, e alguns não tem a presença sequer de um médico.
E qual a trajetória possível no momento, após a procura de atendimento? A justiça.
O número de processos transitando e a serem analisados nos tribunais por questões de saúde superam em muito a imaginação dos mais qualificados. Tratamentos. Medicamentos. Exames. Os que têm indicação médica, prescrição médica mesmo, (gerando “dificuldades de atendimento”), vão para a Justiça.
E o que tenho ouvido ultimamente é a frase: “Entrou na Justiça. Ganhou. Mas não levou”. Como se fosse uma brincadeira. E não é. Os tribunais julgam. Fazer cumprir é outra história.
Estabelece-se a segunda fila: os pacientes com razão, com decisões judicialmente estabelecidas aguardando serem cumpridas.
"Há um confronto administrativo entre os médicos e profissionais de saúde de maneira geral e o direito estabelecido, permeando várias instâncias e controles sociais que, pelo acúmulo de trabalho mal tem tempo de se 'falar'. "
E a fila vai crescendo.
O limite da fila é o óbito (e não a falta de atendimento) pois, como já disse, não há espaço no papel do atestado, para a colocação de tempo de espera em fila de atendimento. Falo das duas filas: médico/administrativa e judicial.
Há espaço no atestado de óbito, apenas para “tempo de doença”. Cada um entenda do jeito que melhor lhe convém.
E o tempo vai passando, as famílias se conformando com o diagnóstico feito de seu paciente. Algumas mais que outras, pois o interesse do óbito, para algumas, atende a outros fins...
Decisão judicial tomada e não atendida. Como se isso virasse... destino. E não um verdadeiro crime, por omissão de atendimento.
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