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O Hipertenso
Ballone GJ - Psicossomática e Cardiololgia - in. PsiqWeb
Psiquiatria Geral.
O
atual conhecimento médico no que diz respeito às causas da
hipertensão arterial tem enfatizado seu aspecto
multifatorial, resultante de um complexo desequilíbrio no
sistema responsável pela manutenção de um fluxo e volume
sanguíneo satisfatórios e do tônus da musculatura
arterial. Na realidade, apenas 10% dos casos de hipertensão
arterial têm suas causas específicas detectadas e a
expressiva maioria dos casos continua sendo rotulada de
hipertensão arterial essencial, ou seja, sem causa orgânica
definida.
A fisiologia da pressão arterial, onde se pretende atender
a necessidade do organismo de manter sempre um fluxo sangüíneo
adequado às suas demandas, o coração, enzimas, íons,
vasos e rins, sob o comando e controle do sistema nervoso
central (SNC), em sua secção autônoma, interagem
harmoniosamente. Nossas necessidades corporais de sangue
variam de momento a momento e de região a região do corpo,
conforme as influëncias e solicitações internas e
externas. Portanto, a regulação da pressão arterial é
uma tarefa adaptativa bastante complexa. Detectar nossas
necessidades biológicas e situacionais, bem como atuar na
regulação da pressão arterial é um dos atributos do
Sistema Nervoso Autônomo.
Existe uma linha de pesquisas sobre a origem da hipertensão
arterial que têm apontado para uma alteração
constitucional (genético ou não) na permeabilidade da
membrana de algumas células (entre elas as células
tubulares renais, as células da musculatura lisa dos vasos
sanguíneos e dos neurônios adrenérgicos) que promoveriam
maior retenção de sódio intracelular.
Há outra linha de pesquisas que investe na investigação
de um defeito constitucional (genético ou não) nos centros
neurológicos do bulbo e do hipotálamo, bem como nos
pressorreceptores, no sistema nervoso simpático ou no
sistema vascular e renal.
O componente genético da hipertensão arterial se suspeita
tendo em vista a incidência maior de hipertensão em famílias
de hipertensos. Segundo alguns autores, a tendência hereditária
costuma aparecer em cerca de 45 a 75% de todos os pacientes.
Em gêmeos univitelinos a concordância para hipertensão
arterial é de 50% e nos bivitelinos de 23%.
A discrepância de 50% nos gêmeos univitelinos sugere que o
mecanismo genético-constitucional pode não ser o responsável
exclusivo para o desenvolvimento da hipertensão, nascendo aí
a hipótese de que certos fatores ambientais também
pudessem sustentar a pressão arterial elevada.
Observou-se, em muitos trabalhos, que determinadas
comunidades que não ingerem sal não desenvolvem hipertensão
arterial, como ocorre com os índios ianomãmi (Carvalho J J
et al. - Pressão arterial e grupos sociais. Estudo
epidemiológico. Arq. Bras. Cardiol. v40. n2, p.p. 115-120,
1983). O papel do estresse na elevação da pressão
arterial, tanto em homens como em animais, também tem sido
pesquisado. Variados experimentos que empregam estímulos
ambientais estressantes contribuem para essas hipóteses.
Isso tudo acaba por sugerir que, entre outros, pelo menos
dois fatores ambientais conhecidos têm se destacado na gênese
da hipertensão arterial: a ingestão de sal e o estresse.
Interessa-nos as questões relacionadas ao estresse.
Juntando-se essas hipóteses com as idéias de Selye sobre a
adaptação continuada do organismo através do estresse,
vamos entender que, em determinadas circunstâncias, a elevação
da pressão arterial faria parte dessa resposta adaptativa.
Isso, de certa forma, corrobora a idéia de que, em muitos
casos, a hipertensão arterial pode ser incluída nos
transtornos da adaptação. Quer dizer que determinado
organismo que vive uma situação de estresse e exige uma
resposta adaptativa poderá reagir com hipertensão
arterial.
Em intensidade e duração discretas, a elevação da pressão
arterial durante momentos de estresse pode ser considerada
uma resposta perfeitamente fisiológica às solicitações
do estresse. No paciente hipertenso, entretanto, observa-se
não só intensidade maior da resposta hipertensiva, como
também duração maior, sendo que, em alguns casos, os níveis
pressóricos se manteriam permanentemente elevados.
Sendo fisiológica a resposta hipertensiva diante do
estresse, sendo constitucional a sensibilidade a desenvolver
essa resposta em intensidade e duração exageradas, então
nossa preocupação não se detém mais na influência do
estresse sobre a pressão arterial, mas sim, na
vulnerabilidade da pessoa ao estresse, ou seja, na característica
de certas pessoas se manterem estressadas.
Voltamos, então, à questão muito propalada da
sensibilidade variável de pessoa a pessoa, ou seja da existência
de uma espécie de filtro afetivo por parte de cada indivíduo,
no sentido de avaliar e valorizar as diversas situações
vividas e enfrentadas.
Através dos filtros afetivos, os quais constituem o sistema
de avaliação através do qual a pessoa sente e valoriza
sua existência, as circunstâncias e situações atuais serão
julgadas como sendo mais ou menos ameaçadoras, portanto,
exigindo maior ou menor esforço de adaptação, exigindo
maior ou menor intensidade e duração das respostas
adaptativas.
Ainda através dos filtros afetivos, a pessoa valorizará
como mais traumático ou menos traumático os seus conflitos
íntimos, suas frustrações e sentimentos de perdas. Será
também através das lentes da afetividade que o mundo
intrapsíquico pode se constituir ou não numa fonte de ameaças
e sofrimento. É por causa disso que acabamos por considerar
agentes estressores, não apenas as situações ou fatores
ambientais e exteriores ao sujeito, mas a estrutura e os
conflitos intrapsíquicos, frutos da sua personalidade e de
sua história de vida.
Franz Alexander foi um dos primeiros autores a observar e
descrever as peculiaridades daquilo que chamava de
Personalidade Hipertensiva. Trata-se de pessoas com um núcleo
de hostilidade reprimida. Atualmente crê-se que, além
desse traço hostil reprimido, o hipertenso pode apresentar
também um afeto depressivo, dependência dissimulada,
passividade, sentimentos pessimistas e dificuldade para
externar emoções.
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