A
dimensão da Hipertensão Arterial
Dr. Róger
Bonow Mendes
Especialista pela Sociedade Brasileira de Hipertensão
Médico do Instituto Nacional de Cardiologia
Laranjeiras
Divisão de Hipertensão Arterial
A
despeito dos avanços realizados nas descobertas de fármacos
cada vez mais eficientes no controle da hipertensão
arterial as estatísticas americanas mostram que
menos de 30% dos pacientes portadores de hipertensão se
apresentam controlados. Um terço dos portadores de
hipertensão não conhecem seu estado. Esta situação é
tanto mais grave para os mais idosos, negros e portadores de
diabetes mellitus.
A hipertensão é o fator principal ou coadjuvante em mais
de 200 000 mortes ao ano. A mesma hipertensão precedem em
75% todos os casos de insuficiência cardíaca que é
a causa mais comum de hospitalização nos pacientes acima
de 65 anos . A cada 53 segundos um americano tem um acidente
vascular cerebral (derrame), perfazendo mais de 600 000
americanos por ano. Um terço destes morre imediatamente após
o derrame e a hipertensão arterial é o fator de risco,
modificável, mais freqüente para o acidente vascular
cerebral e seu risco é diretamente proporcional ao
aumento da pressão arterial. Uma redução de 5% nas cifras
de pressão arterial reduzem o risco de derrame em 35 a 40%.
As doenças cardiovasculares custam à nação mais de 326
bilhões de dólares ao ano.
Em nosso país esta situação é muito semelhante.
Muitos de nós não sabemos ser portadores de pressão alta
nem nunca saberemos.
As intercorrencias matam antes.
Por outro lado, onde e como aferir a pressão arterial?
Se falarmos dos grandes centros urbanos temos a condição
dos médicos, postos de saúde, bancos de sangue, clínicas,
campanhas institucionais, médicos do trabalho e uma série
de situações que trazem conforto e até certa tranqüilidade.
É muito freqüente receber em meu ambulatório pacientes do
interior, pessoas mais velhas até, que nunca tiveram sua
pressão arterial medida na vida! Pessoas simples que
chegam, sem queixas, muitas vezes não sabendo informar
porque vieram à consulta médica. Alguns já com
comprometimento cardíaco importante. Outros com os rins já
bem comprometidos. E nunca souberam e nem saberiam se não
fosse medida sua pressão. Deduz-se que a medida da pressão
arterial foi à porta de entrada para investigação do
paciente e seu encaminhamento a serviço especializado. E a
porta de entrada do paciente no sistema de saúde.
A partir do diagnóstico da hipertensão começa a aparecer
à dura realidade da falta de condições de comprar remédio,
fazer exames e tudo mais.
Quando falo de falta de condições parece até que falo de
gente miserável, periférica ou seja lá o nome que a
designe. Falo do empobrecimento progressivo da classe média.
A mesma que tinha condições em um passado recente de pagar
um plano de saúde, comprar medicamentos e ainda sobrar
algum no final do mês.
O que estes assuntos tem em comum?
Sim, é que por aqui, sabemos das estatísticas americanas.
Elas se aplicam ao Brasil. Mas que, além de tudo isto se
morre por falta de condições muitas vezes de se ter
medicamentos. Salvo honrosas exceções de programas
municipais e estaduais de diagnóstico e tratamento da
hipertensão arterial, das ligas de hipertensão arterial
espalhadas pelo Brasil, alguns hospitais universitários,
com fornecimento de medicamentos antihipertensivos (município
do Rio de Janeiro com um programa invejável) as condições
ainda são muito precárias. Com todo o planejamento do
governo federal, ainda é pouco. A dimensão da hipertensão
arterial se vê depois do estrago. E o estrago custa
dinheiro para investigar e tratar e manter.
Todos, mas todos os esforços tem que ser usados na prevenção
e tratamento. Medir a pressão arterial uma vez por ano, no
mínimo. Após os 40 anos, de forma mais freqüente e sempre
que for necessário. Sempre em ambiente adequado e por
profissional treinado. Na sua escola, em seu trabalho, em
sua academia quando for fazer ginástica.
Se você é um líder em sua comunidade, aprenda em
serviços especializados, a tirar a pressão arterial. Peça
explicações a algum médico ou enfermeiro de como fazê-lo.
Quais os cuidados. Faça um treinamento. Tenha consigo
um aparelho de pressão devidamente calibrado, para que
possa ser acionado quando necessário e que as pessoas
saibam respeitar e encaminhar quando sua pressão arterial
estiver acima de 140X90 mm Hg .
Conscientizemo-nos da importância dos exercícios físicos,
do controle de peso e de não fumar.
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O limite ético do matar e do morrer
Róger Bonow Mendes
médico
E interessante a conjugação de assuntos
deste momento. Enquanto nos Estados Unidos discute-se se
uma pessoa com vida vegetativa pode morrer (Terri),
retirando-se a aparelhagem que a mantém viva (eutanásia
passiva), vejo no mundo milhões de pessoas que morrem (os
mais rigorosos tem ate um mortímetro de plantão contando
quantas mortes por minuto acontecem) por falta de
assistência. Fome. Falta de saneamento básico. Guerras sem
fim. E as que vão começar ainda... Mas, não vamos nos
distanciar do ponto. E no Brasil, pós FOME ZERO? Já
pararam pra avaliar? E a assistência à saúde. Seria
possível imaginar que de um momento para o outro se
descobriu que no Rio de Janeiro a assistência médica digna
está ruim? E nos outros estados, está boa? Não conheço
grande cidade brasileira em que as queixas habituais de
falta de segurança não se conjuguem com a falta de
assistência à saúde. E há muito tempo. Denúncias não
faltaram e não faltam. A intervenção no Rio está
mostrando o descaso de anos e anos que se tem para com a
saúde. Vejam. Faz-se uma campanha para controle de
diabetes, hipertensão arterial, doença renal, câncer, etc.
Um monte de gente, que nunca foi ao médico, começa a se
ligar. Participa da campanha. Tem diagnóstico ou suspeita
diagnóstica. Os hospitais que, sem aporte, já tinham
dificuldades de atendimento, se defrontam com uma nova
população de, agora pacientes, que necessitam
encaminhamento, tratamento, exames mais sofisticados,
internações, cirurgias, eletivas ou não enfim exercerem
seu direito ao tratamento. Refiro-me aos carentes, aos
pobres, àqueles que sem condições, amanhecem nas filas dos
hospitais públicos. Não esquecendo que o empobrecimento da
população e o desemprego vem aumentando e o preço dos
planos de saúde pela hora da morte, e os pacientes estão
indo para os hospitais públicos. É um outro contingente,
que tem que ser considerado. Mas sim, estávamos falando de
eutanásia passiva. De uma paciente nos Estados Unidos.
Será que a omissão dos governos, a irresponsabilidade por
falta de estrutura, de planejamento, de verbas para saúde
no Brasil, não é uma forma de eutanásia passiva?
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